Sem Censura





12/08/2006 23:30

Pitigrilli teria dito qualquer coisa como:
“Os homens pensam que fazer filhos é tão fácil
como tomar um bonde.
Esquecem-se que estão convidando uma alma inocente
para um miserável banquete coletivo.
Esquecem-se que não estão fazendo uma criança, mas um homem”.

O que me preocupa é a banalização da pessoa pela própria pessoa.
A mediocridade dos sentimentos.
O leilão dos filhos. A falência do amor.
A brincadeirinha chamada responsabilidade.
Lar virou coisa episódica, tão descartável
como refugo de baralho. Como numa grande mercearia,
afetos e ódios estão enlatados nas mesmas prateleiras
da omissão, ausência e desprezo..
É chegar, pegar, consumir, jogar fora, tão inútil
como qualquer jornal lido.
Passei mil anos contemplando a miséria humana.
Vi o milionário comprando duas deusas da noite, nuas,
dentro de um ovo de páscoa especialmente construído
para elas.
A família, sorridente e batendo palminhas, assistiu
ao garoto, no seu aniversário de dezesseis (16) anos,
desfazer os laços coloridos daquele presente.
O menino cresceu. Deixou de ter apenas 16 anos.
Aos vinte, já era viciado. Traficante, aos 22.
Com vinte e três, latrocínio. Por 5 anos, ficou preso.
Foi degolado vendendo maconha nas celas.
Vi meninas, quase crianças, assistindo festivos namoros
da jovem mãe. Hoje, todas são aidéticas. Pedem esmolas.
Nenhuma tem 18 anos.
Vi pai e mãe, aos gritos, trocarem murros e palavrões
junto aos filhos.
Neste momento, cada um está em lugar diferente:
a mãe no hospício, o pai na prisão, a filha mais velha
num prostíbulo e a outra, mendiga e alcoólatra.
O rapaz, desaparecido faz tempo, dizem que é assaltante no Rio.
O que me angustia é a banalização do ser humano.
É todo o mistério da Criação sendo desprezado como coisa rotineira, insignificante produto de uma trágica linha de montagem. Objeto saído de uma fábrica, jogado de um
lado para outro, escravo de uma engrenagem impessoal.
O que me angustia são os pais brincar com vidas.
O que deprime é ver bolinhas de existências ao sabor da irresponsabilidade. Queiram ou não, filho será imagem e semelhança. Se a carga genética é fardo pesado, a herança
da educação e convivência, é cruz fatal.
A Lei do Retorno existe e é fria.
Outro dia falamos do PCC. Pois bem, mais terrível
que a realidade do fenômeno social, é saber que a maioria das crianças desses ambientes inspira-se nos exemplos à sua porta. Seja pelo status junto à comunidade, seja pela fortuna rápida
e até mesmo pelo falso sentido de heroísmo... seja pelo desprezo que já nutrem pela vida. Não lhes resta outra referência de valor. Isso é alarmante. Política e socialmente alarmante.
Sobre a miséria humana não há poesia.
Apenas cruzes.

- Arnaldo Romano -



enviada por Vivian






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